quinta-feira, novembro 17, 2005

Do Sebanunes Bastiao

Este é do Tião Nunes! Chupado do link
http://www2.uol.com.br/capitu/19,6,2004,2440.html
Imperdível. (Pela chupança, acho que ele não vai ligar. É para a difusão do esporte por ele mesmo proposto.)


COMO MATAR UM ESCRITOR

Sebastião Nunes
de Minas Gerais, especial para o Capitu

19/6/2004 23:44:07

Há mais de 40 anos, Luiz Lôbo publicou, na antiga revista Senhor, excelentíssimas “fórmulas” para liquidar jovens escritores, antes que fosse tarde demais. O tempo passou, a revista sumiu, os escritores perderam a aura, mas as idéias me parecem válidas ainda hoje, quando o puxa-saquismo a jornalistas e corrida a prêmios tipo cágado substituíram o orgulho do texto bem escrito. Enfim, neste mundinho recheado de escritor vagabundo, em que mais vale bom contrato & retrato em revista, melhor mesmo é abortar vocações recém-nadas, como se liquidam fetos muxibentos e fedorentos. Não me lembro do texto, é lógico, mas em síntese a proposta era parecida com a dependurada aí embaixo, que reponho na roda com minhas próprias palavras. Afinal, matar escritor (ou qualquer tipo de artista) pode se tornar um novo esporte, não só interessantíssimo como bastante saudável, tanto para seus praticantes como para a sociedade em geral. Futuramente, poderá até ser incluído entre as provas olímpicas, desde que ainda exista escritor no futuro. Nessa feliz eventualidade, proponho que tão novo quanto nobre esporte seja apelidado “escritoricídio” ou até mesmo “escribicídio”. Seus praticantes serão louvados como “escritoricidas” ou “escribicidas”, lembrando os congêneres herbicidas, germicidas e até a formidável, antiqüíssima e nunca assaz valorizada formicida Tatu, que jamais exterminava as imortais formigas cabeçudas, mas era amplamente utilizada por donzelas apaixonadas e ninfetos desiludidos em seus amores proibidos. Finalmente, suplico que não venham a alcunhar o novo esporte de “sebunicídio” ou “sebastunicídio”, pois sou totalmente contrário a homenagens nominais. Prefiro bustos de bronze em praça publica, em que pombos namorem, arrulhem e satisfaçam suas necessidades mais prementes.

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Prólogo.

Imagine que seu filho (ou filha) cresceu com vontade de ser escritor (a). Não há sintomas, é um carinha como outro (a) qualquer. (Daqui em diante vai tudo no masculino, ou essa leréia não termina nunca).
Foi ele mesmo que certo dia, durante o café da manhã, espetando a faca na manteiga, disse: “Vou ser escritor”. Você, pai extremado, mãe amorosa, coça o queixo e reflete. Se ele, em silêncio, te espetasse a faca no peito, tudo bem. Seria um garotão normal, pois tal ato já se incorporou aos padrões comportamentais dos inclames (indivíduos de classe média). Se, ao contrário, espetasse a faca no próprio peito, nada demais. Apenas outro belo sinal dos tempos inclâmicos. Mas espetou logo na macia manteiga, a mais delicada, gordurosa e indefesa das criaturas. Você percebe que a coisa é séria, vocação mesmo, tipo aquela de padres e freiras de antigamente, que depois se arrependiam e transformavam os conventos em bordéis. Não, seu filho é diferente, quer ser escritor, e não vai se arrepender. É preciso tomar decisões, drásticas decisões. E você as toma, pai ou mãe, com rapidez, eficiência e sabedoria.

Desenvolvimento.

Primeira tentativa. Você manda o garoto treinar no Corinthians, pois seu concunhado é conselheiro nato. Claro que é treino pra inglês ver. Nada do sonho de se tornar um craque tipo Ronaldinho (o gorducho ou o dentuço, tanto faz). Ele vai mesmo é pra gandaia. Depois do “treino”, em que dá um chute e três furadas, perde um gol debaixo das traves e quase quebra a perna do zagueiro adversário, toma uma ducha fria e parte com a turma do oba-oba. E bota oba-oba nisso. Mas, inexperiente e sem camisinha, pega gonorréia e volta pra casa.

Segunda tentativa. Tratando da gonorréia, o garotão insiste em escrever. E como aids se tornou tão comum como resfriado, você o matricula numa faculdade de letras do interior, dessas em que até o motorista do ônibus fretado pra levar a moçada passa no vestibular. Uma dessas cuja principal função é fazer o aluno odiar literatura, depois de sofrer Machado, suar Euclides, vomitar Camões. Nem assim. Apesar de tudo, ele continua escrevendo e lendo, lendo e escrevendo. Já tem uns quatro contos e meia dúzia de poemas escritos. Não é por aí, você percebe depois do segundo semestre.

Terceira tentativa. Grana, grana sem limites. Pra comprar, pra torrar, pra viver a vida como uma festa permanente, tipo Wilde e seus lordes, Fitzgerald e suas ressacas, Hemingway e suas touradas. Mas não existe mais lorde, ele não gosta de beber e não sabe a diferença entre uma girafa e um touro. Prefere ler e escrever. Escrever e ler. A essa altura, já tem oito contos e uma dúzia de poemas. Entra em concurso nos Cafundós. Ganha menção honrosa.

Quarta tentativa. Você não desiste, isso de escritor não tem futuro, você está mais do que certo, eu também concordo. Então tira o garotão da faculdade de letras e matricula na faculdade de comunicação de seu tio-avô. Qual curso? Publicidade, é claro. Vai aprender como se promove sabonete, pipoca, carro japonês, óculos escuros, apartamento de luxo, tênis, iogurte, candidato a vereador, camisinha, cerveja – e escritor. Qual a diferença? Nenhuma. Tanto faz sabonete como vereador, tudo é produto, tudo se vende e tudo se compra. Vender um novo e notável escritor é a mesma coisa que vender um notável e novo detergente. Só muda o enfoque. Mas o garotão não quer saber. Já tem doze contos e dezoito poemas. Manda pra concurso em Araras e ganha medalha de bronze. Tá ficando feio.

Quinta tentativa. Ainda no primeiro semestre, você transfere o futuro aidético pro curso de jornalismo. Facílimo: foi só mudar pro andar de cima. Mas o problema – sempre tem um problema – não é exatamente o curso, mas o que fazer dentro do curso. Economia? Nem pensar! De pensar morreu um burro e economista vive tropeçando em juros e câmbio. Política nacional? Nem internacional, tudo é a mesma meleca. Em política nacional, tem de fazer o que seu rei (o editor) mandar. Na internacional, idem, ibidem. Esportes? Basta a experiência do Corinthians. Em que gaveta, espreme você os miolos moles, desovar o presunto?

É então que você descobre a América, inventa a bússola e o espaguete, bota o ovo em pé: Cultura, com “c” minúsculo. Isso! Ele vai se especializar em cultura, vai ser um varejista cultural, não, desculpe, uma varejeira cultural, também não, perdão, um editor culturalista, qualquer coisa por aí. Resolvido, e o resto é fácil: um telefonema, e ele entra logo ganhando o teto no jornal do tio-primo.

O final é feliz. Basta entupir o filhotão de orelhas de livros, encartes de cds, rilises de filmes, uma bruta salada. Mergulhado nesse pântano, ele confunde literatura com orelha de livro, música com encarte, filme com rilise. Um ano depois é promovido a editor geral e daí em diante nem orelha lê mais. Manda ler. Não vai a teatro. Manda ir. Claro que ouve música, vê filmes, degusta cantinas, tateia exposições, cheira perfumarias. Todos os sentidos estão alertas. O mundo agora está claro, embora goste tanto de Chorãozinho e Xitotó quanto de Xuxa Semgalo ou de Caenarque Butano. No fundo, bem no fundo, é tudo a mesma coisa.

Certo dia, finalmente, para coroar sua obra-prima, você o vê, com a mais pura admiração e a mais profunda ternura paterna (ou materna), espetar a faca no peito da mãe (ou do pai), deixando em paz a manteiga. Sua missão materna (ou paterna) está cumprida. O escritor está morto, mortinho da silva. E a inclamidade está salva. Na vida como na literatura.


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4 comentários:

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