quinta-feira, setembro 01, 2005

O torno

Um colchão macio, o travesseiro de espuma, ventilador para suavizar o cheiro forte do incenso de umbanda. Marli estava deitada de bruços, com os pés para cima e, apoiada nos cotovelos, fazia palavras cruzadas. Anos e mais anos no hotel Olimpo. Às vezes saía, dava um tempo, ia fazer outras coisas. Mas voltava.

Os vultos são a essência e a arte do seu trabalho. Todo o segredo, que muitas profissionais da zona não se dão conta, está em saber discernir o que é vulto e o que é cliente.

À essa destreza, Marli acrescentava um requintado toque de intelectualidade. Mas não por charme, pela necessidade de conseguir terminar suas palavras cruzadas no quarto em penumbra. Os óculos de aros finos na ponta do nariz ajudam a enxergar as letras miúdas e a perceber os vultos e clientes.

O corredor iluminado, o quarto em penumbra. De dentro pra fora, vê-se apenas vultos passando rápido. Um vulto, outro vulto. E passam incessantes, o dia inteiro, desde cedo, muito cedo. Um vulto, outro vulto e outro vulto. Parou. Pode ser um cliente.

Saudação informal, três letras.

“Olá”

Marli termina a última letra, risca o acento e olha por cima dos óculos. Nada. Fora um vulto mais demorado. Retoma suas palavras cruzadas. Um vulto, outro vulto, outro e outro vulto mais .

Um vulto e outro vulto. Parou.

“Dinheiro em inglês”, cinco letras.

_ Quanto é?

_ O quê? Pergunta Marli, enquanto tenta lembrar a palavra.

_ Quanto é o programa?

_ Chupadinha, camisinha e três posições: cinco reais. Responde olhando nos olhos do cliente.

Ele entra calado. Segue o olhar até as coxas grossas e lisas de Marli. Ela fecha a revista de palavras cruzadas, tira os óculos, levanta e fecha a porta. O cara senta na beirada da cama e começa a tirar a roupa, ainda calado.

Marli pega seus apetrechos: um rolo de papel toalha, uma camisinha e o tubo de lubrificante. Tira o sapato de salto alto, a meia-calça e a calcinha. O cliente fica meio decepcionado com o que vê.

_ Pode deitar aí. Diz, quase ríspida.

O sujeito deita-se, olha para o monte flácido e pergunta sem graça: _ Como é seu nome?

_ Regina. Qual posição? Ela fala rápido e embrenha nos grandes lábios o dedo com lubrificante.

_ O quê?

_ Qual posição? Ela repete, com a camisinha quase toda colocada no rapaz.

A olhar o próprio pau empacotado pela camisinha vagabunda, o cliente pergunta outra vez: _ Como é que você se chama?

_ Regina. Responde Marli, antes de abocanhar o cacete. Ela chupa alguns minutos, pára e pergunta: _ Qual a posição?

O cliente, mais parecido com um vulto de olhos arregalados e boca semi aberta, demora a responder. Ela, muito profissional, não se irrita: _ Qual posição?

_ Você por cima, no torno. Finalmente ele responde, de olhos mais arregalados.

Marli trepa no sujeito, ajeita o torno e põe-se a rebolar. A cama range um pouco, o ventilador assopra o incenso forte.

_ Já gozei. Pode parar.

Tudo pronto, roupas vestidas, o cliente enfia a mão no bolso.

_ Tem certeza que não vai querer as outras duas posições?

_ Não.

_ Tem gente que acha pouco três e você quis só uma - ela insiste.
_ Não, obrigado. Tome os seus cinco reais.

O cara paga, abre a porta e sai. O corredor iluminado. O quarto em penumbra.

Um vulto, outro vulto, outro vulto e outro vulto. Marli senta-se na cama e abre novamente suas palavras cruzadas. Um vulto, outro e outro vulto. Parou.

_ Lembrei! Money!!!!! Ela exclama sem olhar a porta.

_ Quanto é?

7 comentários:

Ins-pirada disse...

Muito Bom!
Tem ritmo, tem sensibilidade, entra rasgando na carne!

Quanto é? :*

Lillian Bento disse...

Descobri seu blog nas idas e vindas da internte. Gostei de alguns textos, mas confesso que fiquei apaixonada por alguns. Como este "O torno". Como afirma o comentário acima, tem movimento, tem vida. Tens um ótimo texto. Parabéns.

Anônimo disse...

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queda falsa disse...

Faço por 5 reais... com o bilhete único, é possível três posições.

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